Médico Responsável
Dr. Alessandro Schuffner
CRM 18822
Pós-graduado no Jones Institute for Reproductive Medicine, EUA.
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29/01/2010

Alguns genes conseguem identificar com antecedência problemas que levam à infertilidade, como a menopausa precoce

A consultora em marketing e gestão Irene Hoffelder Vioti, 45 anos, não teve pressa em encontrar o homem certo e casou-se aos 33 anos, cerca de 10 anos acima da idade média em que a maioria das brasileiras se casa, segundo o último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Logo, ela e o marido começaram a pensar em ter filhos. Dois anos se passaram e Irene não conseguia engravidar. Foi quando descobriu que tinha as trompas obstruídas, o que diminuía as chances de ser mãe. “Fiquei cinco anos tentando engravidar. Fiz uma cirurgia para desobstruir as trompas, sete inseminações artificiais, mas nada funcionou”, conta.

Irene decidiu então mudar radicalmente o estilo de vida. Largou o emprego, aderiu a uma dieta alimentar natural e começou a praticar ioga e meditação. “Aos 39 anos, engravidei do Gabriel, que hoje tem 6 anos, sem nenhum tratamento de fertilidade. Descobri que era o estresse que me impedia de ter filhos”, diz Irene, que aos 42 anos também teve Bruna, de 3. O estresse e a ansiedade são grandes inimigos das mulheres que pretendem engravidar, mas não são os únicos, de acordo com a ginecologista Silvana Chedid, diretora do Comitê de Reprodução Assistida da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH).

As mulheres que passaram da idade ideal de fertilidade plena (entre 17 e 25 anos) são as que mais sofrem. “Problemas ovulatórios, imunológicos, a obstrução das trompas e a endometriose são as principais causas da infertilidade feminina”, explica Silvana. Há também outros dois problemas que não são tão comuns, mas são igualmente preocupantes, por serem irreversíveis: o envelhecimento ovariano precoce, que atinge cerca de 10% das mulheres na faixa dos 20 anos; e a menopausa precoce (falência ovariana prematura), que afeta entre 1% e 3% das mulheres antes dos 40 anos.

Declínio precoce

O ginecologista e obstetra Alessandro Schuffner, especialista em reprodução humana, esclarece que a menopausa precoce pode ser causada por alterações genéticas ou por algumas doenças, como as autoimunes. “Pacientes com câncer que precisaram se submeter a tratamento radioterápico ou quimioterápico também têm a fertilidade prejudicada”, lembra o médico. Quem sofre de envelhecimento ovariano precoce experimenta uma queda acentuada no número e na qualidade de sua reserva ovariana quando ainda deveria estar em idade fértil. Já quem tem menopausa precoce perde a função ovariana, ou seja, a sua reserva ovariana se esgota.

“As mulheres nascem com todos os seus óvulos, ao contrário do homem que produz espermatozóides ao longo de toda a vida. Nascemos com milhões de óvulos, mas com o passar dos anos o número diminui. Ao final da puberdade, temos cerca de 400 mil, sendo que apenas 500 apresentam condições ideais para a fertilização. Em mulheres com menopausa precoce, esse estoque começa a declinar já a partir dos 28 anos e se acentua a partir dos 35”, explica Silvana Chedid.

Descoberta

Dosagens hormonais, uma ultrassonografia transvaginal e outros exames de imagem, como a videolaparoscopia, são usados para identificar a maioria dos problemas de fertilidade nas mulheres. Mas um novo teste genético pode prever se uma mulher sofrerá de envelhecimento ovariano ou menopausa precoce antes de o problema ocorrer.

Segundo pesquisadores do Centro de Reprodução Humana de Nova Iorque, nos Estados Unidos, em entrevista à revista New Scientist, mulheres que apresentam uma versão do gene FMR1que contém entre 55 e 200 repetições do trinucleotídeo CGG na sequência de DNA tem maior risco de desenvolver a menopausa precoce. Já mulheres com uma contagem acima ou abaixo de 28 a 33 repetições podem sofrer de envelhecimento ovariano precoce.

Esse mesmo gene, também chamado de X Frágil, pode causar deficiência mental, se as repetições de CGG estiverem acima de 200. As informações são da revista norte-americana New Scientist.

 

Precaução

Exames não são totalmente confiáveis

Segundo reportagem da revista New Scientist, publicada em novembro, a mutação do gene BRCA1, que diminui a capacidade de reparar o DNA e aumenta o risco de câncer de mama e de ovário, também pode estar relacionado ao risco de desenvolver envelhecimento ovariano precoce. A descoberta foi anunciada em outubro pelo médico Kutluk Oktay, da Faculdade de Medicina de Nova Iorque, nos Estados Unidos.

Outros estudos genéticos têm encontrado uma série de mutações genéticas comuns que influenciam a idade da menopausa. Mas apesar dos avanços, existe uma preocupação dos médicos em relação à segurança desses exames. Eles precisam ser confiáveis para não criar falsas expectativas e nem gerar ansiedade nas mulheres que pretendem engravidar.

Para a médica ginecologista Silvana Chedid, que conheceu o teste do FMR1 durante um congresso em Atlanta (EUA), a descoberta é um grande avanço, pois a mulher poderá se programar para ter o filho mais cedo, enquanto ainda estiver fértil, ou optar por congelar os óvulos saudáveis e adiar a gestação.

Já o especialista em reprodução Alessandro Schuffner, por sua vez, é contra os testes genéticos para diagnosticar doenças relacionadas à fertilidade. “O problema desse teste é que ele consegue dizer se a mulher vai ter a menopausa precoce, mas não tem como estimar quando ela começará a desenvolver a doença. Ela vai se sentir pressionada a tomar uma decisão antecipada, muitas vezes sem necessidade. A presença da mutação não significa necessariamente que ela terá a doença. Além disso, o problema pode se manifestar mais tarde do que ela imagina”, explica o médico. Ele acredita que o aconselhamento e os exames já existentes são suficientes para avaliar a função ovariana das pacientes. (JK)

Fonte: Gazeta do Povo – Caderno Saúde – 14/12/2009

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