Acompanhamento psicológico
Mesmo sabendo que a infertilidade é fato cada vez mais freqüente na sociedade moderna, onde a opção por ter filhos é adiada para a realização de outros planos na vida do casal e mesmo tendo o contato com amigos ou conhecidos que passaram por situações próximas, não imaginamos que a possibilidade também aconteça conosco, pois todo o ser humano já fantasiou e, muito provável desejou, conceber filhos. Quando nos deparamos com tal realidade, passamos a conviver com sensações não confortáveis, muito provavelmente não prazerosas.
No decorrer do processo de tratamento, das tentativas e expectativas, somos “obrigados” a conviver e saber lidar com a postura social, familiar e ou profissional. Provavelmente são poucas as pessoas que conseguiram compartilhar de sensações que nos rodeiam, pois a sociedade não imagina o tamanho do sentimento de perda que permeia os casais, por esse motivo reconhecemos o quanto o processo é solitário e individual. Torna-se uma busca basicamente interna.
Iniciar um tratamento de reprodução humana requer do casal situações conhecidas. Percorrer um caminho que não estava programado numa vida familiar, implica em conseqüências emocionalmente fortes, que geram emoções como isolamento, ansiedade, culpa, vergonha, baixa-estima e, em determinados casos, depressões significativas. Conseguir lidar com tais sensações, de maneira saudável, é a preocupação da nossa equipe, que busca através de seus profissionais, estabelecer uma relação de cumplicidade e parceria com o casal envolvido. Poder partilhar as angustias com a equipe durante o processo, contribui num bem estar geral; o equilíbrio e a força neste momento são fundamentais para o sucesso do tratamento!
Por tal razão, nos colocamos dispostos a fazer parte como membro efetivo, compartilhando esse turbilhão de sentimentos e situações que o tratamento nos remete. Pensamentos destrutivos surgem com força incontrolável, sabemos que fantasias do tipo: “Deus não deve querer que eu tenha um filho” ou “Estou velha demais” entre tantas outras, nos fazem pensar em desistir e não dar seqüência ao nosso plano.... Ressaltamos a importância de não banalizar a situação, respeitando sempre nossos desejos e vontades, sem permitir interferencias não produtivas, principalmente num momento que estamos concentrados num resultado afetivo.
O caminho deve ser trilhado numa relação de confiança entre todos os envolvidos, rever significados, valores e posturas anteriores, mesmo que em situações distintas, por vezes são atitudes necessárias para erguermos força e coragem no trajeto. Lidar com o inesperado desarmonisa o que aparentemente estava equilibrado; embora temos conhecimento das possibilidades da vida, nunca estaremos seguros o suficiente para conseguir enfrentar as nossas, por isso, a intensidade da sensações surgem irracionalmente.
Enfim, a jornada e nossa!!!
Acreditamos saber que existe uma saída, mas não sabemos onde está. Não havendo ninguém do lado de fora que nos possa indicá-la, devemos procurá-la por nós mesmos. O que o labirinto ensina não é onde está a saída, mas quais são os caminhos que não levam a lugar algum
Norberto Bobbio
Luto Solitário
"Você não pode subestimar o poder do medo."
--Patricia Nixon
A mulher que se submete a tratamentos de Reprodução Assistida pode passar por vários níveis de tentativas, o processo pode ser longo e doloroso. Conseguir lidar com frustração costuma não ser tarefa fácil, pois as pessoas se deparam com sentimentos que remetem ao luto, porém de maneira muito solitária, já que socialmente infertilidade não é compreendida como perda e sim como uma incapacidade de gerar e procriar.
Como todos somos seres humanos pertencentes à sociedade, o casal não age e pensa diferente e englobam muito pessoalmente a sensação de incapacidade e fracasso. Os sentimentos costumam ser ambíguos e dolorosos, como se tivessem que serem castigados pelo fato da exposição aos tratamentos medicinais. A cada ciclo menstrual que se inicia, as mulheres são obrigadas a lidar com sua capacidade de frustração e conseqüentemente conseguir forças e energia para o próximo mês. Torna-se complicado, sobretudo, um grande desafio, pois perderam mais um mês e se defrontaram com a morte interna e pessoal....fato que remete as mais profundas fantasias.
Fantasias que aumentam com a incompreensão social e pressão familiar, assumindo uma posição de isolamento, ficando difícil conviver com outras gestantes e crianças próximas. A impossibilidade de compartilhar sentimentos é sofrido e complexo, por isso ocorrem decisões desastrosas tentando ocultar a situação, quando o que buscavam era apenas preservar emoções e evitar situações dolorosas. A questão se agrava quando o casal culpa um dos parceiros, pois fragiliza a relação e o casamento se desgasta, reforçando a incapacidade do outro e afetando, ainda, a relação sexual do parceiro.
Vivenciar as diversas perdas que acompanham o tratamento, como a perda da capacidade de gerar um filho naturalmente, a perda da privacidade de conceber, a perda da experiência de compartilhar um filho biológico são exemplos citados nas diversas áreas da psicologia e tidas como experiências que remetem ao luto. A forma como cada indivíduo/casal lida com as situações pode ter peso significativo no decorrer do processo, por isso torna-se produtivo o acompanhamento terapêutico nesse momento para rever os estágios e significados de cada etapa experenciada, assim como compreender o processo de “luto” presente desde o inicio do tratamento.
Rachel Meleipe Machado Tardin
CRP: 08/11274
Anielle Stipp Amador Travain
CRP: 08/05820
Entre em contato conosco para mais informações.
|